terça-feira, 30 de agosto de 2011

Werkbund e a Habitação Social na Alemanha




Duas das mais importantes exposições de arquitetura da primeira metade do século XX na Alemanha, a de 1914 em Colônia, e a de 1927 em Stuttgart, foram promovidas pelo Deutsche Werkbund, onde está a ascendência mais próxima da Bauhaus. O Werkbund foi uma associação fundada em Munique em 1907 cuja breve existência (já que foi interrompida pelo início da I Guerra Mundial) deveu-se a um conjunto de artistas, artesãos e publicitários que incluía, entre seus fundadores, nomes integrantes do núcleo de pioneiros da modernidade na arquitetura, como Peter Behrens, Joseph Maria Olbrich, Theodor Fischer, Josef Hoffmann e Fritz Schumacher, entre outros. Segundo Benevolo, o Deutscher Werkbund foi:  “A mais importante organização cultural alemã de antes da guerra, fundada em 1907 por um
grupo de artistas e críticos associados a alguns produtores, (...) e abrigou, entre 1907 e
1914, a nova geração de arquitetos alemães: Gropius, Mies, Taut. Duas personalidades de excepcional relevo servem de mediadores entre essa geração e a anterior, a qual iniciou a renovação da cultura arquitetônica: van de Velde e Peter Behrens. “A contribuição do primeiro é, sobretudo de ordem intelectual, enquanto que o segundo age como exemplo de trabalho prático e é, talvez, como supõe Argan, a figura chave para a compreensão dessa passagem essencial na história da arquitetura moderna.”
Ou seja, seu objetivo era aprimorar a produção industrial alemã em todos os níveis, através de uma ação conjunta entre a arte, a indústria e o artesanato, em uma busca permanente pela reconciliação dos princípios do bom desenho com as necessidades da máquina.Embora as suas raízes estivessem no movimento Arts & Crafts, ao contrario deste, o Werkbund não buscava um retorno nostálgico ao artesanato medieval, mas sim uma harmonia entre a arte e a indústria.
Dando continuidade aos esforços do Werkbund para aprimorar a produção industrial alemã, Mies van der Rohe convoca em 1927 os alemães Walter Gropius, Peter Behrens, Hans Scharoun, Adolf Schneck, Bruno e Max Taut, Ludwig Hilberseimer, Hans Poelzig, Adolf Rading e Richard Döcker; os franceses Le Corbusier e Pierre Jeanneret; os holandeses Jacobus Johannes Pieter Oud e Mart Stam; o belga Victor Bourgeois; e o austríaco Josef Franke, para construir, em Stuttgart, com o lema "A Habitação" (Die Wohnung), o Weißenhofsiedlung, segunda exposição promovida pela associação.

A realização de Stuttgart insere-se no conjunto da experiência européia do entre-guerras, que consistiu na elaboração de idéias modernas sobre o programa da habitação coletiva e social, e seus resultados teriam influenciado diversas realizações semelhantes ocorridas posteriormente na Alemanha e na Europa.Com isso, a experiência do  Weißenhofsiedlung  assemelha-se, em alguns aspectos, à iniciativa da Interbau – mesmo esta última estando inserida no contexto do pós-guerra, e não no entre-guerras – com relação a determinadas condições especiais que as cercam, como a variedade tipológica e a participação simultânea de diversos arquitetos, locais e estrangeiros. Tema central do II CIAM, realizado em Frankfurt em 1929, a definição do Existenzminimum – ou seja, a definição da célula habitacional mínima com base em requisitos econômicos, biológicos e sociais – permeou tanto a realização do Weißenhofsiedlung, como esteve presente na concepção de alguns dos edifícios do Hansaviertel. 
Diversos arquitetos participantes do Weißenhofsiedlung possuíam experiências anteriores na constituição de trechos autônomos de cidade moderna, e neste ponto destaca-se um dos mais importantes aspectos que diferencia a iniciativa da Interbau 1957 quando comparada aos demais bairros modernos até então construídos. Enquanto esta criou um fragmento de cidade moderna no coração de Berlim, as operações urbanas decorrentes de projetos federais para habitação de baixo custo, movidas pela busca por terrenos baratos, não implantaram os novos bairros nos populosos centros urbanos, mas sim em regiões industriais e periféricas, onde as cidades ainda não haviam chegado, o que exigiu grandes extensões do sistema viário às zonas suburbanas. 
Na própria cidade de Berlim, encontramos diversos exemplos de conjuntos habitacionais modernos que foram construídos em regiões periféricas da cidade. Entre estas iniciativas, destacam-se, no entre-guerras, o Siedlung Eichkamp, de 1920; o Hufeisensiedlung Britz, projetado em 1925 por Bruno Taut e localizado a sudeste de Berlim; o Waldsiedlung Zehlendorf ou Onkel-Toms-Hütte, projetado entre 1926-32 por Bruno Taut, Hugo Häring e Otto Rudolf Salvisberg; os blocos habitacionais de Mies van der Rohe para Afrikanischestraße, distrito operário de Berlim, de 1926-27; e o Großsiedlung Siemensstadt, de 1929-31. Fora de Berlim, também encontramos exemplos, como o bairro operário Pessac, projetado por Le Corbusier a partir de 1924; o bairro Dessau-Törten, projetado por Walter Gropius em 1926; e as vivendas em fita de Oud para Hoek van Holland, de 1926, e para o bairro de Kiefhoek, de 1925.
O Weissenhofsiedlung relaciona-se, portanto, com os principais bairros habitacionais construídos em Berlim nos anos 20 e com os principais problemas de habitação e infra-estrutura urbana do período do final do século XIX até meados da década de 30. Estes problemas foram ocasionados, entre outros, devido ao enorme incremento populacional verificado tanto nas cidades alemãs, especialmente Berlim, quanto nas europeias. Estas deficiências em termos de moradia e estrutura urbana provocaram a eclosão das propostas dos Siedlungen, com foco na habitação social, e a consequente fundação do programa de ação moderno no país.



Figura: cartaz de divulgação da exposição “Die Wohnung” com foto da maquete do projeto.

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